segunda-feira, janeiro 24, 2005

A interpretação de Jeremias

Num comentário, bem a propósito, ao meu último texto, a Dora afirma que o Jeremias não é emocionalmente inteligente porque "afinal já desistiu de procurar queijo novo...". Não estou de acordo com a afirmação (que a Dora inteligentemente coloca como interrogação).
Vejamos. Toda a biografia do Jeremias é um esforço para a mudança. É verdade que ele não entende a mudança como algo que se conquista a pouco e pouco integrando as pequenas mudanças. Para ele a mudança advém sempre da violência (metaforicamente falando) da luta entre contrários. Aplica à sua vida corrente o princípio da filosofia dialéctica da unidade e luta dos contrários. Simplisticamente, a luta entre a tese e a antítese de que resulta a síntese, que se transforma em tese que é contrariada pela antítese, de que resulta nova síntese. Como se pode ver a mudança e a procura de novas respostas que transformem a mesma realidade é o mote de vida do Jeremias. O resto é apenas uma atitude esteticamente diferente perante a vida. O guarda roupa negro, o gosto pelo mapas e tesouros que o tempo mais maltratou...
É esta atitude estética que pode dar a ideia de desistência, de assumpção de indiferença perante os outros. Mas essa é a parte artística do Jeremias.
Poder-me-ão dizer "e a atitude final? "Não estando disposto a esperar que a humanidade venha alguma vez a ser melhorJeremias escolheu o seu lugar do lado de fora".
Também para isso Jeremias tem resposta. Ele escolheu o seu lugar do lado de fora, é certo. Mas alguém pode afirmar que só existe novo queijo dentro do velho labirinto?