sábado, janeiro 08, 2005

Solidariedades

Esta história da solidariedade com os povos dos sudeste asiático fez-me pensar no dia a dia dos "solidários". Como é fácil ajudar quando a ajuda é apenas colocar dinheiro numa conta bancária. Como é difícil ajudar quando a ajuda implica dar tempo, atenção, condicionar um pouco da nossa liberdade de acção. Vamos ao multibanco e transferimos euros para uma conta bancária. Emocionamo-nos com o nosso próprio gesto e ainda temos a compensação de o ver divulgado na televisão. No entanto, mudamos de passeio porque vem aí um nosso conhecido cheio de problemas e nós não temos tempo para ouvir.
Será que esta tão proclamada solidariedade não é uma forma de limpar a nossa má consciência dos dias que correm? Eu sei que apesar de tudo tem uma utilidade para os que foram atingidos pela catástrofe. Mas não terá uma utilidade maior para quem a pratica?
No jornal da noite da SIC foi-nos apresentada uma reportagem sobre velhos abandonados nos hospitais, meses a fio, porque os familiares não querem assumir o ónus de os tratar. Dizia um dos doentes, justificando a ausência dos filhos, "eles têm a vida deles, são muito ocupados". Quase que apostava que contribuiram, com euros, para ajudar as vítimas do tsunami.
É fácil ser solidário quando o que temos de dar não é nada de nosso. É apenas dinheiro. Quando a dádiva é em "material emocional" tudo fico mais complicado, mesmo que o "necessitado" seja alguém que nos deu a vida uma vez e voltaria dar se necessário fosse.
Desculpem o azedume mas... Cristo morreu, Marx também e até eu não me ando a sentir lá muito bem.