segunda-feira, janeiro 31, 2005

Tanta coisa

De repente este sítio tornou-se num espaço de troca "frenética" de informação. Começámos a descobrir os comentários e deixámos de ter a sensação de estarmos a falar para dentro. Óptimo. Os últimos temas são entusiasmantes. Verdade, solidão, amor próprio, amor ao próximo, espera, convicções, soluções, receitas... tudo o que tínhamos escondido debaixo da pele começa a sair pelos poros, lentamente ou abruptamente.
O conceito de verdade que cada um de nós tem é uma referência fundamental para o nosso dia a dia e para a forma como nos olhamos e como olhamos os outros. O exercício da minha profissão ensinou-me que a verdade não existe em termos absolutos. Cada um tem a sua verdade e deve bater-se por ela. Deve tentar convencer os outros de que a sua verdade é a Verdade. Abdicar disto é abdicar de viver. Se partirmos para o convencimento dispostos a questionar a nossa verdade pelo caminho, estaremos com este exercício a fortalecer a nossas convicções. Vou confessar-vos uma coisa, nada me repugna mais do que as pessoas "alforreca". Adaptam-se a tudo, moldam-se a quem os pisa e sobrevivem, sem grandes incómodos. As opiniões dos outros servem-lhes sempre que nem uma luva. Só têm uma convicção: não estão convictos de nada. Prefiro os que me afrontam, que me dizem olhos nos olhos:"não estou de acordo". Esses ajudam-me a crescer, a incorporar na minha verdade tudo o que eu considero de bom na sua verdade. E muitas vezes convencem-me a mudar de verdade. Mas têm de lutar muito, têm de desmontar os meus argumentos, encurralar-me nas minhas próprias estratégias e deixar-me sem palavras. Ou melhor, com as palavras: "tens razão".
Lembro-me das discussões intermináveis, nas aulas de filosofia do direito, com um colega meu, padre de profissão. Os argumentos eram cruzados e as verdades questionadas, sem precisarmos de estabelecer regras à partida. Acabámos na posição em que começámos. Nem ele me converteu ao catolicismo, nem eu fiz dele ateu. Mas algo ficou para cada um de nós. Fquei a perceber que nem todos os padres eram "agentes do obscurantismo" e ele confessou que tinha usado algumas frases, ditas por mim, nalgumas homilias. O respeito que se estabeleceu pelo "adversário" foi tal, que quando uma missa dele foi transmitida pela TV, assiti ao evento.
Não precisei de abdicar de convicções para perceber a sua verdade. Nunca o deveriamos fazer. O respeito pelo outro começa no respeito pelas nossas convicções. A atitude da "alforreca" é exactamente o contrário. A adaptação à forma e conteúdo de quem nos afronta, como forma de ter menos chatices. Faz-me lembrar algo que me ensinaram quando eu estava a sair da infância, no princípio dos anos 70: "Não é do polícia que nos assalta da casa e nos leva preso que temos de sentir raiva, desempenha o papel dele do lado de lá da barricada. É do nosso vizinho que nos denuncia e que diz com ar cândido, a minha política é o trabalho". Alforreca!