domingo, janeiro 30, 2005

Terapias...(que adoptei para quando me sinto só?!)

Aprendi a estar só há muito pouco tempo. E já vou para lá dos 40. Entre outras coisas, descobri:

1º que sabe bem estar só. Estar comigo mesma. Descobri o barulho que eu própria posso (e sou capaz de) fazer e o silêncio que de insustentável se pode transformar em desejável.

2ºque sentir-me só, afinal não tem nada a ver com estar só. Que afinal, no meio de muita gente desde sempre, já tinha tido muitos momentos (prolongados) de solidão. E tudo porque quando sabemos que não nos ouvem, não nos acreditam, não se esforçam por nos entender,e/ ou não são solidários connosco, aqueles que estão mais próximo fisica e emocionalmente, deixam-nos num estado de solidão insuportável e impossível de descrever.

3º que depende de nós sair da teia de sensações desagradáveis que a memória nos oferece, de vez em quando. Que depende da nossa capacidade de resistência e da nossa imaginação combater a solidão sentida nos dias mais cinzentos. Que não adianta sentir-mo-nos sós por estarmos sós.
Têm resultado comigo algumas terapias que apesar da sua vulgaridade, não deixam de ser desaconselhadas a certas pessoas. Não me responsabilizo, por isso, pela sua utilização.

Terapias Musicais:
Ponho música para dançar,bem alto, vulgo DISCO/Rock/MPB, à hora de fazer o jantar ( e enquanto o faço), divido-me entre a cozinha e a sala, as panelas e o fogão, sacudindo-me conforme gosto e sei ao som forte. O meu filho foge, qual esquilo assustado, para o quarto dele e as minhas vizinhas ficam com um tema novo para conversar à janela, mas o que é certo é que afugento a tristeza e fico cheia de energia. Isto pode repetir-se por vários dias. Ainda tem a vantagem de libertar toxinas e aquecer em dias frios- efeitos colaterais apreciáveis)
Não oiço música melancólica quando estou "blue"
Não oiço óperas (fazem-me vibrar demais, por dentro, mesmo sem perceber a letra)
Não oiço baladas, histórias de amor, e coisas afins... Este tipo de música guardo-a para ouvir quando não me sinto só.

Terapias Consumistas
Compro, mesmo no fim do mês o perfume que andava há anos para comprar... ( o que vale é que isto só acontece mesmo de muitos em muitos anos...) . Pode ser substituído por outra coisa qualquer do mesmo tipo: dispensável!
Compro o livro que nem sequer está na minha longa lista de espera para ser comprado, num gesto de pura loucura. Vou para casa toda contente e nesse dia nem quero "perceber" que me sinto só. Esqueço-me de mim.
Compro uma garrafa de bom vinho, abro-a e bebo ao jantar, janto mesmo devagar e bebo mesmo devagar, a saborear. Acendo velas pela casa, crio o ambiente fixe. Como a garrafa dá para muitos dias, Voilá,... uma série de dias de boa companhia.

Terapias emocionais
Chego a casa e descarrego no filho. Temos assuntos pendentes, mãe e filho, que servem como luvas para estas ocasiões. A inteligência emocional do filhote deve ser adequada pois mal se apercebe do estilo foge que nem esquilo assustado pela escada acima.
Ligo para a amiga mais disponível ( a maioria tem putos pequenos e à hora que me apetece descarregar, não há disponibilidade, o que é uma inconveniência para quando me sinto só) o que não significa que acalme o meu estado de solidão, mas conforta. E passou-se um tempão ao telefone no bec bec. Distraí.
Procuro terapia de pêlo. Sabe bem. É indolor. Inócua. Nem toda a gente sabe dar. Nem toda a gente sabe receber. Todos podemos dar e todos podemos receber.De onde menos se espera, surge a magia. De onde menos se espera surge o abraço, o afago, o pedido de beijinhos. De dentro de mim, surge como que por magia esta vontade enorme de acarinhar, de rir, de dar colo. Terapia de pêlo. O Calvin é que tem razão.

Terapias laborais

Os azulejos da WC agradecem.
Os armários, as gavetas, a arrecadação....
A mesa para lixar, e lá vai o filhote a fugir que nem esquilo assustado... é que estas coisas quando me surgem como terapias, têm tendência para levar outros de arrasto e os outros, que podem, defendem-se.
As minhas obras mais interessantes de trabalhos manuais, tipo tricot, crochet,etc, foram produto de momentos de solidão.

Outras terapias

Ando. Ando muito. Pela cidade. Paro numa qualquer livraria ou loja de discos (mesmo limitadas)
Sento-me na esplanada a ver pessoas a passar. Imagino a vida delas.
Encho os meus vazios com a imaginação. Enontro-me com os outros, mesmo que eles não saibam.
Procuro crianças com quem interagir. As crianças não nos deixam espaço de manobra para divagar.
Visito familiares e amigos. Procuro a companhia de quem sei me faz rir.
Corto com rotinas. Vou jantar fora com o filho. Passo a noite em frente do computador com o filho a ver o que ele "sacou" da net. Música, filmes, banda desenhada, publicidade... tanta coisa. E eu com vontade de fugir dali que nem esquilo assustado... Vou ao cinema.Faço uma extravagância mesmo grande. Não tem que ser com gastar dinheiro. Pode ser mesmo andar com um nariz de palhaço, no Natal e enfeitar a casa de brilhantes na Páscoa.
Não faço nada do que se espera de mim. Amuo de mim mesma sadavelmente.Não faço o jantar....

O que sei que não posso fazer:

Comer que nem uma desalmada.
Ficar entre quatro paredes, quando me é insuportável o branco.
Enfiar-me na cama a tentar dormir sem conseguir.
Faltar ao trabalho, por mais tentador que isso me pareça.
Não aproveitar uma oportunidade para rir.
Não acreditar no dia de amanhã.
Alimentar o vazio que a solidão traz.
Sentir-me só para além do que sei que me é possível suportar...