terça-feira, fevereiro 22, 2005

Alergias e outras situações....

Há pessoas alérgicas a uma variedade tão grande de coisas e situações que nem nos passa pela cabeça: às alergias da Primavera, aos ácaros, aos pêlos de animais, aos pólens, fenos, fibras, perfumes, lactoses... "you name it!" É lamentável para quem as sofre porque se traduzem em desconforto, no mínimo e uma questão crónica, por vezes grave (asma por ex.). Todos nós , melhor ou pior conhecemos um pouco esta realidade.
Há situações e coisas, porém, que são alérgicas às pessoas. Para essas, não há antídotos, paciência e/ou conhecimento, por mais ancestral que seja, que as compreendam... Estou-me a referir à situação do "ser ou não ser"
Há conceitos como civismo, dignidade, respeito, educação (vulgo polimento), espaço, integridade, ética, inteligência, empatia... que nunca chegam a "atacar" certas pessoas. Mudam-se os tempos, as vontades, muda o mundo e há sempre quem continue imune a estas pragas de contágio benéfico mas ineficaz a 100%.
Aprender a lidar com isso é uma arte. Há uns anos atrás, ao atender público, frequentemente tinha de dizer à/ao utente que a pessoa a visitar não estva disponível. E não menos frequentemente era ameaçada com "chantagem mineral" isto é: A mão que ostentava o anel de curso , balançava-se em frente do rosto e juntava-se às palavras: "Tem a certeza que ele não está?/Acha mesmo que ele não me vai receber?/ Já lhe disse que é o/a DR? que aqui está?
Normalmente sinto mais do que penso, uma ideia triste, perante situações como estas. Quando o que valorizamos em nós é a pedra que trazemos no dedo... Não estou com isto a dizer que não seja legítimo, motivo de orgulho pessoal, sinal de sucesso, etc. Não tenho nada contra o facto de se usar. Não me confundam... Apenas penso que é pouco, muito pouco, quando necessitamos de nos refugiar atrás de um símbolo ( e não do conhecimento que ele representa) para nos impormos como seres humanos.
Respeito muito quem trabalha. Ponto. E nem de propósito, hoje li em rodapé, (não sei em que canal) : uma em cada 12 crianças no mundo, é trabalhadora infantil. É muito, é demais. Respeito muito essas crianças que quando chegarem à minha idade, se chegarem, saberão muito mais do que eu alguma vez hei-se saber, por muita informação que eu assimile. Elas saberão concerteza quão difícil será chegar à minha idade. E com alguma dignidade, pelo menos.
Sobretudo por isto, procuro não dar muita importância a comportamentos estanques e voltar a minha energia para outras miragens. Sendo complicado, por vezes, não é impossível.
E quero acreditar que não há antídoto que me cure desta praga que me corrói ano após ano e que se avoluma dentro de mim e que se manifesta através de uma vontade muito grande de fazer a diferença. Mesmo que para isso seja preciso atender pedras coloridas em balcões públicos, chamar drs a quem não é médico e eventualmente ser tratada, não como pessoa, mas como peça de uma engrenagem, socialmente preconcebida como "menor" por quem assim o entender...
Por dentro,sou eu, os meus sonhos, as minhas ideias, as minhas crenças,as minhas vitórias e fraquezas. As minhas valências e carências. Que se alteram, que mudam, que me obrigam a existir. É um círculo. E quem me vai tirar isso? Não é certamente quem não me respeita, ou não é civilizado comigo, ou não me dá espaço para respirar com dignidade.