quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Carnaval...

Estou aqui no meu cantinho acolhedor, olho pela janela e vejo uma esplanada com gente, miúdos mascarados a brincar, uma fonte a funcionar. Isto atira-me para os carnavais da minha infância. A primeira infância, vestido com os fatos com que a minha tia Bita me enfarpelava. De cigana, da capuchinho vermelho, de estudante, de pajem, de pescador. À noite nos bailes dos "Franceses", quando toda a gente parava de dançar era a vez dos miúdos da minha idade inavadirem o recinto em correrias loucas, atirando uns saquinhos cheios de serradura às cabeças das meninas de 8 e 9 anos. Como era especialmente tímido só entrava na brincadeira quando o intervalo das danças estava quase a terminar. Lembro-me do vocalista dos "Holiday in Portugal", anunciar as danças mais lentas com a frase "rocem, rocem, como Jean Jacques Rosseau".
Depois outros carnavais, fim da infância princípio da adolescência. Um grupo de miúdos encostados à parede em frente ao café Tico-Tico. A escolha do alvo, normalmente uma beata ou um cavalheiro conotado com as figuras mais sinistras da terra. Um ovo que voa, alguém aos gritos, risadas. Estava iniciada a verdadeira festa de carnaval. Passada uma hora o sargento Reis tinha conhecimento do facto e meia hora depois o "Cabra Alta" e o resto da GNR saíam para a rua. Mais ovos, correrias, cavalos qua caíam, miúdos e jovens a fugir para dentro dos cafés. A coisa acalmava e voltávamos à carga. Por vezes alguém era agarrado e levado para o "30" (o número da porta da prisão perto do posto da GNR).
Foi por essa altura que um professor me explicou claramente o que era uma fracção imprópria comparando-a com a imagem do GNR a cavalo. A besta de cima era maior que a de baixo.
Por esse tempo fazíamos do Carnaval a nossa pequena "intifada".
Seríamos terroristas?????